Alexandre Costa Pedrosa examina que o reconhecimento do autismo em mulheres ainda enfrenta obstáculos específicos, ligados a expectativas sociais, padrões de comportamento aprendidos e critérios diagnósticos historicamente construídos a partir de perfis masculinos. Como consequência, muitos sinais acabam sendo interpretados como traços de personalidade, timidez acentuada ou ansiedade, o que posterga o acesso a uma avaliação adequada. Esse atraso interfere diretamente na forma como meninas e mulheres compreendem suas próprias dificuldades e organizam suas experiências ao longo da vida.
Nesse contexto, compreender as particularidades do espectro em mulheres amplia a leitura clínica e social do autismo. O processo de avaliação precisa considerar não apenas comportamentos observáveis, mas também estratégias de adaptação desenvolvidas desde cedo para atender a demandas externas. Esse conjunto de ajustes, muitas vezes invisível, pode mascarar desafios reais e sustentar um funcionamento baseado em esforço contínuo.
Padrões sociais e o mascaramento ao longo da vida
Desde a infância, meninas tendem a ser estimuladas a observar, imitar e se adequar às regras sociais com maior rigor. Alexandre Costa Pedrosa aponta que esse cenário favorece o desenvolvimento do mascaramento, estratégia na qual a pessoa aprende a reproduzir comportamentos esperados para evitar rejeição ou conflitos. Embora funcional a curto prazo, esse mecanismo exige alto investimento emocional e cognitivo.
Com o passar do tempo, o mascaramento dificulta a identificação do autismo, pois a adaptação aparente esconde sinais como sobrecarga sensorial, exaustão após interações sociais e dificuldade de autorregulação. Por conseguinte, o custo desse esforço se acumula e pode se manifestar em quadros de ansiedade, fadiga mental persistente e sensação constante de inadequação, especialmente na vida adulta.
Sinais menos visíveis e interpretações equivocadas
Em mulheres, o autismo pode se expressar de forma menos estereotipada. Alexandre Costa Pedrosa descreve que interesses intensos costumam estar ligados a temas socialmente aceitos, como literatura, artes, saúde ou áreas acadêmicas específicas, o que reduz a percepção de rigidez comportamental. Além disso, habilidades verbais preservadas ou acima da média contribuem para a impressão de que não existem dificuldades relevantes.
Entretanto, sinais como hipersensibilidade sensorial, necessidade de organização interna rígida, desconforto diante de mudanças inesperadas e exaustão após demandas sociais frequentes costumam estar presentes. Quando não há um olhar especializado, essas características são atribuídas a fatores emocionais isolados ou a traços de personalidade, atrasando a investigação adequada do perfil neurodivergente.

O processo de avaliação com recorte sensível ao gênero
A avaliação do autismo em mulheres exige um olhar ampliado e contextualizado. Alexandre Costa Pedrosa ressalta que entrevistas clínicas detalhadas, histórico de desenvolvimento e relatos subjetivos ganham peso quando os sinais externos são sutis. Instrumentos padronizados seguem relevantes, mas precisam ser interpretados à luz do contexto social e das estratégias adaptativas construídas ao longo da vida.
Nesse processo, a escuta qualificada assume papel central. Relatos sobre cansaço extremo após socialização, dificuldade em sustentar vínculos sem esforço excessivo e sensação de atuar continuamente em um papel social fornecem pistas importantes. Dessa forma, a avaliação deixa de ser apenas classificatória e passa a ser compreensiva, respeitando trajetórias individuais e experiências acumuladas.
Impactos do diagnóstico tardio e caminhos de adaptação
Quando o diagnóstico ocorre na adolescência ou na vida adulta, os impactos emocionais tendem a ser ambivalentes. Alexandre Costa Pedrosa observa que há alívio por compreender experiências passadas, mas também luto por anos de incompreensão e autoexigência excessiva. Reconhecer esse processo permite reorganizar expectativas e reduzir interpretações negativas construídas ao longo do tempo.
A partir do diagnóstico, adaptações práticas ganham espaço, como ajustes na rotina, limites mais claros nas interações sociais e busca por ambientes menos sobrecarregantes. Esse movimento favorece escolhas mais conscientes no trabalho, nas relações e no autocuidado cotidiano. Ao reconhecer padrões de funcionamento antes ignorados, o processo de avaliação amplia a autonomia, reduz a exigência de adaptação forçada e contribui para uma relação mais estável com o próprio modo de perceber e responder ao mundo.
Autor: Demidov Lorax