No Piemonte, a caça às trufas continua baseada na experiência dos trifolai, tradição familiar que permanece fora da lógica da produção em escala
Poucos ingredientes alcançam o prestígio da trufa branca do Piemonte nas cozinhas de alta gastronomia. Presente em cardápios de restaurantes ao redor do mundo é disputada durante sua curta temporada, ela movimenta uma cadeia econômica construída sobre um paradoxo: quanto maior seu valor comercial, mais sua produção continua dependente de um conhecimento que não pode ser industrializado.
Ao contrário de culturas agrícolas convencionais, a trufa branca (Tuber magnatum) não é produzida em lavouras nem colhida por máquinas. Sua localização depende da leitura do ambiente feita pelos Trifolai, caçadores de trufas que percorrem bosques acompanhados por cães treinados, e da capacidade de interpretar fatores como solo, umidade, vegetação e comportamento do animal. São habilidades transmitidas entre gerações e que permanecem, em grande parte, fora de registros técnicos ou manuais.
Segundo Antonella Giancoli, fundadora e CEO da Benarrivati, esse é um dos aspectos que mais surpreende os viajantes que visitam a região pela primeira vez.
“Existe a expectativa de encontrar uma atividade organizada para visitantes, mas o que se vê é um trabalho que continua acontecendo porque faz parte da vida dessas famílias. O viajante acompanha um conhecimento que não foi criado para o turismo e que continua existindo independentemente dele”.
Essa característica ajuda a explicar por que a caça às trufas permanece cercada por discrição. Os locais de coleta raramente são divulgados, e muitos caçadores preservam em sigilo as áreas onde trabalham. A reserva não está ligada apenas ao valor econômico do produto, mas também à necessidade de proteger ecossistemas sensíveis e evitar a exploração excessiva de áreas que dependem de condições ambientais muito específicas.
Mais do que um ingrediente raro, a trufa representa uma atividade em que natureza, experiência humana e tempo caminham juntos. Não existe tecnologia capaz de substituir completamente a percepção desenvolvida pelos Trifolai ao longo de décadas, nem algoritmo que indique com precisão onde o fungo surgirá a cada temporada.
Para Antonella, essa relação entre conhecimento tradicional e território ajuda a explicar por que a experiência desperta interesse mesmo entre viajantes acostumados aos roteiros mais sofisticados.
“O que impressiona não é apenas encontrar uma trufa. É perceber que aquele resultado depende de uma relação construída ao longo de muitos anos entre o caçador, o cão e a floresta. Em um momento em que quase tudo parece automatizado, observar um ofício que continua baseado na experiência humana muda completamente a forma como entendemos aquele produto”.
Depois da busca, o percurso segue naturalmente para outra tradição do Piemonte: a produção de Barolo. Em pequenas vinícolas familiares, o visitante conhece adegas onde diferentes gerações continuam responsáveis pelo cultivo das vinhas e pela elaboração dos vinhos. O roteiro evita apresentações padronizadas e privilegia conversas com os próprios produtores, conectando duas atividades que compartilham a mesma lógica: ambas dependem menos de escala e mais da continuidade de conhecimentos transmitidos dentro das famílias.
O dia termina à mesa, onde a trufa encontrada durante a manhã é incorporada ao jantar e harmonizada com vinhos produzidos na própria propriedade. A refeição deixa de ser apenas o encerramento do roteiro para revelar como agricultura, gastronomia e cultura formam uma única narrativa naquele território.
Segundo a Benarrivati, experiências como essa exigem relações construídas ao longo dos anos com caçadores, produtores e famílias locais. Muitas dessas propriedades não operam como atrações turísticas permanentes e recebem visitantes apenas em condições previamente acordadas, respeitando o ritmo de trabalho de quem mantém essas atividades.
Para Antonella, esse é o ponto que diferencia uma visita de uma experiência de aprendizado.
“O verdadeiro privilégio não está em acessar um lugar fechado, mas em ser recebido por pessoas dispostas a compartilhar um conhecimento que continua vivo porque nunca deixou de fazer sentido para elas. O turismo não cria essa tradição; ele apenas permite que ela seja compreendida”.
Ao acompanhar um trifolai pelos bosques do Piemonte, o viajante percebe que o maior valor da trufa branca não está apenas em seu preço ou na reputação gastronômica que conquistou ao longo do tempo. Ele está na permanência de um saber que atravessou gerações sem se tornar um espetáculo e que continua lembrando que alguns dos ativos mais valiosos de um território não podem ser acelerados, reproduzidos em escala ou substituídos pela tecnologia. Esse conhecimento, preservado por famílias que ainda vivem da floresta e da terra, talvez seja a verdadeira riqueza que o Piemonte oferece.
Sobre a Benarrivati
A Benarrivati é uma empresa internacional especializada no planejamento de viagens sob medida, reconhecida por sua solidez, idoneidade e credibilidade no mercado. Sob a liderança de sua fundadora, Antonella Giancoli, a marca atua como uma rede de Destination Management Companies (DMCs), com sede principal na Itália e com filiais nos Estados Unidos, Europa e Brasil. Pautada pelos valores de transparência, colaboração e responsabilidade, a Benarrivati elimina intermediários ao operar com equipes e concierges locais próprios nos principais destinos do mundo. Com uma trajetória marcada por feedbacks altamente positivos e relações de confiança de longo prazo, a empresa desenvolve mais de mil roteiros tailor-made por ano, consolidando-se como uma verdadeira parceira de seus clientes na criação de experiências autênticas, seguras e memoráveis.