Depois de abrir mais de 120 lojas em cinco anos, o Assaí prevê cerca de cinco inaugurações em 2026 e direciona parte da expansão para farmácias e postos de combustível instalados em unidades já existentes. Para Elmar Varjão, CEO da André Guimarães Engenharia e Infraestrutura, o movimento ilustra uma mudança que redefine a engenharia para o varejo: cresce o peso das obras feitas dentro de lojas que não podem parar.
Construir uma unidade nova em terreno vazio é um desafio conhecido. Reformar, ampliar ou implantar um novo serviço numa loja que recebe milhares de clientes por dia envolve outra lógica, em que segurança do público, continuidade da operação e prazo convivem no mesmo espaço.
O canteiro dentro da operação
Numa loja em funcionamento, a obra disputa espaço com corredores, estoque, docas de recebimento e estacionamento. Cada frente de trabalho precisa ser isolada do público com tapumes, rotas de fuga preservadas e sinalização clara, sem bloquear acessos que o cliente usa todos os dias.
Elmar Varjão menciona que o planejamento dessas obras começa pelo mapa da operação, e não pela planta de arquitetura. Horários de pico, janelas de recebimento de mercadorias e fluxos de carrinhos determinam onde e quando cada serviço pode acontecer. Muitas atividades ruidosas ou que geram poeira acabam concentradas no período noturno, o que exige equipes, iluminação e supervisão dimensionadas para esse turno.
Instalações que não podem ser desligadas
O ponto mais delicado costuma estar nas instalações. Câmaras frigoríficas, sistemas de refrigeração das ilhas, iluminação, caixas e sistemas de combate a incêndio precisam continuar funcionando enquanto a obra avança.
Interligar uma nova área à rede elétrica ou hidráulica existente exige sequência cuidadosa, com desligamentos programados, circuitos provisórios e testes antes da transferência definitiva. O levantamento prévio das instalações reais, muitas vezes diferentes do que consta nos projetos antigos, evita interrupções inesperadas. Um desligamento não planejado na refrigeração pode comprometer estoques perecíveis em poucas horas e gerar prejuízo muito superior ao custo da etapa de obra.
Novos usos, novas exigências
A implantação de serviços dentro das lojas acrescenta exigências próprias. Uma farmácia tem requisitos sanitários de layout, armazenamento e controle de temperatura. Um posto de combustível envolve tanques enterrados, sistemas de contenção, monitoramento ambiental e licenciamento específico, além de afastamentos e cuidados de segurança contra incêndio.
Conforme poontua Elmar Varjão, integrar esses usos ao edifício existente é uma tarefa de engenharia multidisciplinar. Estrutura, instalações, segurança contra incêndio e licenciamento precisam ser resolvidos juntos, porque uma exigência não prevista em qualquer dessas áreas pode adiar a abertura do novo serviço.
Prazo medido em receita
No varejo, o cronograma de obra se traduz diretamente em faturamento. Cada semana de área interditada além do previsto significa vendas perdidas, e cada atraso na abertura de um novo serviço adia o retorno do investimento.
Por isso, soluções industrializadas, como estruturas metálicas e componentes pré-fabricados, ganham espaço nessas obras. Elas reduzem o tempo de intervenção no local, diminuem resíduos e ruído e permitem que boa parte do trabalho aconteça fora da loja. A montagem no local passa a ser uma etapa curta, programada para os horários de menor movimento.
Engenharia que preserva a experiência
O resultado de uma boa obra em loja aberta é, em grande parte, invisível. O cliente continua comprando, encontra os produtos, circula com segurança e, em algum momento, percebe que a loja ganhou um novo espaço.
Elmar Varjão aponta que essa invisibilidade é o melhor indicador de qualidade nesse tipo de empreendimento. Em um varejo que passa a crescer também dentro dos próprios imóveis, a capacidade de construir sem interromper a operação se torna uma competência central da engenharia aplicada ao setor.