O mercado de capitais brasileiro bateu recorde de captações no início do ano, superando a casa dos duzentos bilhões de reais em poucos meses. Pedro Daniel Magalhães, executivo com atuação em captação de recursos e gestão financeira, retrata que esse avanço não é apenas um reflexo de juros em queda, mas parte de uma mudança mais duradoura na forma como as empresas brasileiras se financiam.
Por muito tempo, o crédito bancário foi a porta de entrada quase automática para quem precisava de capital de giro ou recursos para investir. Essa porta continua aberta, mas deixou de ser a única, e cada vez menos é a mais vantajosa.
O que está mudando na forma como empresas captam dinheiro?
Instrumentos que antes ficavam restritos a grandes companhias, como debêntures e fundos de recebíveis, hoje chegam a empresas de médio porte com estruturas mais simples e custos de emissão menores. Ao mesmo tempo, instrumentos criados especificamente para negócios menores, como as notas comerciais, cresceram em ritmo acelerado nos últimos meses.
Essa diversificação não substitui o crédito bancário de uma vez, mas reduz sua centralidade. Uma empresa que antes só considerava o banco como opção passa a comparar taxas, prazos e exigências entre diferentes fontes antes de decidir onde captar.
Por que o crédito bancário perdeu parte do protagonismo?
O spread cobrado pelos bancos brasileiros, diferença entre o custo de captação dos recursos e os juros cobrados nos empréstimos, segue entre os mais altos do mundo, resultado de uma combinação de inadimplência, tributação elevada e concentração do setor em poucas instituições. Quando os juros básicos sobem, esse custo se soma ao spread e encarece ainda mais o crédito tradicional.
Diante desse cenário, Pedro Magalhães indica que as empresas passaram a enxergar o mercado de capitais não como uma alternativa exótica, mas como parte normal do planejamento financeiro, mesmo fora do universo das grandes companhias listadas em bolsa.
Os instrumentos que ganham espaço nesse movimento
Debêntures continuam sendo o instrumento de maior volume financeiro entre as emissões, especialmente para captações de prazo mais longo, como projetos de infraestrutura. Notas comerciais, criadas para simplificar o acesso de empresas menores ao mercado, avançaram em ritmo mais rápido que boa parte dos instrumentos tradicionais no último ano.

Cada um desses caminhos atende a uma necessidade diferente: prazo, valor da captação e o tipo de garantia que a empresa consegue oferecer determinam qual instrumento faz mais sentido em cada momento. Uma empresa com recebíveis pulverizados entre muitos clientes tende a se beneficiar mais de um fundo de recebíveis, enquanto um projeto de longa maturação, como a construção de uma nova planta, se encaixa melhor em uma debênture com prazo alongado.
O que essa via exige de quem quer aproveitá-la?
Acessar o mercado de capitais, como destaca Pedro Magalhães, não elimina a exigência de organização financeira, apenas muda quem está do outro lado da mesa. Investidores institucionais avaliam risco de forma parecida com a de um banco, mas costumam exigir relatórios mais estruturados e maior transparência sobre o uso dos recursos captados.
Para empresas médias, essa exigência funciona como um degrau: quem já organiza suas finanças de forma consistente encontra menos atrito para captar por essa via do que quem tenta se adaptar às pressas. Documentos como projeções de fluxo de caixa, histórico de faturamento auditado e um plano claro para o uso dos recursos costumam pesar tanto quanto o próprio resultado financeiro apresentado.
Para onde essa tendência aponta?
A migração de parte do financiamento corporativo para o mercado de capitais tende a continuar mesmo quando os juros começarem a recuar de forma mais consistente, porque a diversificação de fontes passou a ser vista como proteção, não apenas como resposta a um momento de crédito caro.
Por fim, Pedro Daniel Magalhães expressa que as empresas que se familiarizarem com esses instrumentos agora, ainda que em operações menores, chegarão mais preparadas para usá-los em maior escala quando o ciclo de crédito virar novamente a favor das empresas.