Jean Pierre Lessa Ferreira, CTO e especialista em tecnologia, software e inteligência artificial, observa que situações como a de um analista que migrou do financeiro para o comercial e continua aprovando pagamentos ou de um desenvolvedor transferido para outro produto que mantém acesso ao banco de dados do sistema anterior são mais recorrentes do que se imagina. Esses casos raramente são registrados nos relatórios de segurança até que algo dê errado.
Esse fenômeno tem nome: acúmulo de privilégios. Ele acontece quando os privilégios de um profissional, concedidos ao longo da carreira, não são revisados. Com cada promoção, transferência ou participação em projeto, novas permissões são liberadas, enquanto as antigas permanecem ativas por esquecimento ou por falta de um processo definido.
O risco é maior do que apenas ações mal-intencionadas. Contas com permissões excessivas são alvos valiosos para ataques externos, pois uma credencial comprometida pode abrir caminho para diversos sistemas. Entenda como esse acúmulo se forma e quais práticas ajudam a manter os acessos alinhados à função de cada pessoa.
Como o acúmulo de privilégios se forma?
A concessão de acessos é uma prioridade, pois um profissional sem permissões não trabalha. A retirada, por outro lado, não gera urgência. O acesso que sobrou não é reclamado, e sua remoção depende de quem tem autoridade para revogá-lo.
Ao explicar o agravamento do problema, Jean Pierre Lessa Ferreira, diretor de tecnologia, menciona a fragmentação dos sistemas como um dos fatores contribuintes. Em ambientes com dezenas de aplicações, serviços em nuvem, repositórios de código e ferramentas de colaboração, cada plataforma costuma ter seu próprio controle de usuários. Mudanças de função não refletidas automaticamente nas permissões técnicas quando não existe integração entre o controle de pessoal e o RH.
Acessos temporários são outra fonte de acúmulo. Permissões liberadas para resolver um incidente, apoiar uma migração ou participar de um projeto específico permanecem depois da necessidade. Sem prazo de expiração, privilegios que deveriam durar alguns dias se tornam permanentes.

Os riscos criados por permissões esquecidas
Acessos que não correspondem mais à função de um profissional criam exposições de naturezas diferentes. Os riscos mais recorrentes incluem:
- Ampliação do impacto de credenciais roubadas: quando uma conta com muitos privilégios é comprometida por phishing ou vazamento de senha, o invasor herda todos os acessos acumulados e consegue alcançar sistemas que estariam fora do alcance de uma conta restrita.
- Erros operacionais com maior alcance: um profissional que ainda tem permissão de escrita em um ambiente que não utiliza mais pode alterar ou apagar dados por engano, sem perceber que está atuando no sistema errado.
- Fraudes por conflito de funções: a combinação de permissões que deveriam estar separadas, como cadastrar fornecedores e aprovar pagamentos, cria condições para irregularidades difíceis de detectar.
- Exposição de dados pessoais: acessos desnecessários a bases com informações de clientes e colaboradores ampliam o risco de vazamentos e dificultam o cumprimento da LGPD, que exige controle sobre quem trata cada dado.
- Dificuldade de investigação: quando muitas pessoas têm acesso a um mesmo sistema sem justificativa clara, identificar a origem de uma alteração indevida se torna mais lento e menos preciso.
- Contas órfãs e de serviço sem dono: credenciais criadas para integrações, automações ou ex-colaboradores podem continuar ativas sem que ninguém monitore seu uso, tornando-se portas de entrada silenciosas.
Jean Pierre Lessa Ferreira, especialista em software e inteligência artificial, enfatiza o aumento das identidades não humanas nesse cenário. Ademais, os agentes de inteligência artificial, os pipelines de implantação e as integrações entre sistemas também recebem credenciais e permissões. Quando esses acessos não seguem o mesmo rigor aplicado às contas de pessoas, criam um volume de privilégios que nenhuma revisão manual consegue acompanhar.
Como manter os acessos alinhados à função?
O princípio do menor privilégio orienta a prática mais eficaz. Cada pessoa ou sistema deve ter apenas as permissões necessárias para realizar suas atividades. Na prática, isso significa definir acessos por perfis, e não permissões individuais.
A integração entre o cadastro de pessoal e as ferramentas de gestão de identidade e acesso é o ponto de partida para resolver o problema na origem, conforme a avaliação de Jean Pierre Lessa Ferreira, CTO. Quando uma mudança na função registra uma revisão, a remoção de acesso antigo deixa de depender da memória das equipes.
Revisões periódicas de acesso complementam esse controle. Os gestores devem confirmar, em intervalos definidos, se cada integrante da equipe ainda necessita das permissões que possui. Acessos privilegiados podem ser concedidos sob demanda, com prazo de expiração e registro de uso.
Acessos como parte da governança de tecnologia
Em última análise, o acúmulo de privilégios representa um risco silencioso, pois se desenvolve de maneira sub-reptícia, sem que nenhuma decisão explícita tenha sido tomada. Cada permissão esquecida aumenta a superfície de ataque e dificulta a resposta a incidentes.
Ademais, Jean Pierre Lessa Ferreira, diretor de tecnologia, considera que tratar a revogação de acessos com o mesmo cuidado dedicado à concessão é uma das medidas de segurança da informação com melhor relação entre esforço e resultado. Processos automatizados, perfis bem definidos e revisões periódicas reduzem a exposição sem prejudicar a produtividade das equipes.
Como apontado por Jean Pierre Lessa Ferreira, CTO, a expansão dos ambientes em nuvem e das identidades criadas para automações e agentes de inteligência artificial resulta no aumento da quantidade de credenciais a serem controladas. Empresas que estruturam desde já a gestão do ciclo de vida dos acessos chegam a esse cenário com mais visibilidade sobre quem pode fazer o quê em cada sistema.