Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, esclarece que, quando a maioria das pessoas ouve falar em apneia do sono, pensa imediatamente na apneia obstrutiva, aquela em que a via aérea superior colapsa durante o sono e interrompe a respiração até que o cérebro acorde o paciente para retomá-la. Essa forma de apneia é de fato a mais comum, mas existe uma segunda forma, a apneia central, que é significativamente mais prevalente em idosos do que em adultos jovens, que tem mecanismo completamente diferente e que responde mal ao tratamento convencional com CPAP, que resolve a maioria dos casos de apneia obstrutiva.
Neste guia, abordaremos o que é a apneia central, por que ela é mais comum no idoso e o que pode ser feito quando o CPAP não resolve o problema.
O que é a apneia central e como ela difere da obstrutiva?
Na apneia obstrutiva, o problema está na via aérea: os músculos da garganta relaxam demais durante o sono, colapsando a passagem do ar e interrompendo a respiração mecanicamente. O cérebro percebe a queda do oxigênio, acorda parcialmente o paciente, os músculos se reativam, a via aérea se reabre e a respiração recomeça. Esse ciclo se repete dezenas ou centenas de vezes por noite, fragmentando o sono e produzindo os sintomas característicos de sonolência diurna, ronco intenso e apneias observadas pelo parceiro.
Como esclarece Yuri Silva Portela, na apneia central o problema não está na via aérea, que permanece aberta, mas no sinal que o cérebro envia para os músculos respiratórios. Por razões que envolvem disfunção dos centros respiratórios do tronco cerebral, o cérebro simplesmente para de enviar o comando para respirar por períodos variáveis, produzindo pausas respiratórias sem ronco e sem esforço ventilatório aparente. Essa ausência de ronco é frequentemente interpretada como sinal de que o idoso dorme bem, retardando o diagnóstico por meses ou anos.
Por que a apneia central é mais comum no idoso?
O envelhecimento compromete progressivamente os mecanismos de controle da respiração durante o sono por múltiplos mecanismos. A sensibilidade dos quimiorreceptores, estruturas que monitoram os níveis de oxigênio e gás carbônico no sangue e sinalizam ao cérebro quando a respiração precisa ser ajustada, reduz com a idade. Além disso, a estabilidade do sistema de controle respiratório durante o sono diminui, tornando-o mais suscetível a oscilações que produzem os ciclos de hiperpneia e apneia característicos da respiração de Cheyne-Stokes, uma forma específica de apneia central frequente em idosos com insuficiência cardíaca.

Na perspectiva de Yuri Silva Portela, doenças prevalentes na terceira idade, como insuficiência cardíaca, AVC e insuficiência renal crônica, são fatores de risco específicos para apneia central que a equipe médica que acompanha esses idosos deveria investigar ativamente. A sobreposição de sintomas entre essas condições e a apneia central, com fadiga, dispneia noturna e sonolência diurna presentes em todas elas, torna o diagnóstico diferencial particularmente desafiador.
Como a apneia central é diagnosticada e por que o CPAP pode não funcionar?
O diagnóstico da apneia central requer polissonografia completa, exame que monitora simultaneamente a respiração, os movimentos torácicos e abdominais, os níveis de oxigênio no sangue e a atividade cerebral durante o sono. A análise desses dados permite distinguir entre apneias obstrutivas, em que há esforço respiratório sem fluxo aéreo, e apneias centrais, em que não há nem fluxo aéreo nem esforço respiratório.
Segundo Yuri Silva Portela, o CPAP convencional, que funciona criando uma pressão positiva contínua que mantém a via aérea aberta, não trata a apneia central porque o problema não está na via aérea. Em alguns casos, o CPAP pode até piorar a apneia central ao reduzir o gás carbônico a níveis que inibem o drive respiratório central. Nesses casos, dispositivos mais sofisticados, como o ASV (ventilação servo-adaptativa), que detecta as pausas respiratórias centrais e fornece suporte ventilatório automaticamente, são o tratamento de escolha para a apneia central não relacionada à insuficiência cardíaca.
O que esperar do tratamento e como monitorar a evolução?
O tratamento da apneia central no idoso exige abordagem que combine o manejo da condição subjacente, quando identificada, com o suporte ventilatório adequado e o monitoramento regular da resposta ao tratamento. Nesse contexto, a oximetria noturna domiciliar, exame simples que mede a saturação de oxigênio durante o sono, pode ser usada para monitorar a eficácia do tratamento entre as polissonografias de controle.
Yuri Silva Portela pontua que o idoso com apneia central bem tratada frequentemente experimenta melhora expressiva da qualidade do sono, da disposição diurna, da função cognitiva e do controle das condições cardiovasculares associadas. Identificar e tratar a apneia central no idoso é também uma forma de cuidar melhor do coração, do cérebro e da qualidade de vida que o sono fragmentado silenciosamente compromete noite após noite.