Um dos aspectos mais relevantes de qualquer conversa sobre técnica de pedalada é a cadência, tema que interessa a Rolando Bonaccorsi, Diretor de Operações da Vert Analytics e praticante de ciclismo de estrada, e que costuma ser reduzido a uma recomendação única de noventa rotações por minuto. A escolha ideal varia com o atleta, com o terreno e com a duração do esforço planejado para o dia.
A referência virou senso comum por influência direta do ciclismo profissional. Quem acompanha provas vê atletas girando leve em subidas longas e conclui que a frequência alta é sempre melhor, embora o padrão observado na elite reflita anos de adaptação muscular e características individuais que não se transferem automaticamente para o ciclista amador que treina poucas horas por semana.
O que a cadência representa na prática?
Potência é o produto entre força aplicada no pedal e velocidade de giro do pedivela. O mesmo número de watts pode ser produzido com muita força e pouca rotação ou com força moderada e rotação alta, de forma que a cadência funciona como escolha de distribuição do mesmo trabalho entre dois caminhos distintos. A conta final de potência pode ser idêntica com sensações muito diferentes nas pernas.
Cada caminho cobra de um sistema diferente do corpo. Giro alto exige mais do sistema cardiovascular e consome mais oxigênio por watt produzido, enquanto giro baixo sobrecarrega a musculatura e as articulações do joelho. Na esteira do que expõe Rolando Bonaccorsi, a decisão passa por saber qual dos dois sistemas limita o atleta naquele momento da preparação, e a resposta muda ao longo do ano.
Entre força e frequência
Ciclistas com perfil mais forte e pouca base aeróbica tendem a render melhor em cadência moderada, porque a frequência alta eleva a frequência cardíaca sem ganho correspondente de velocidade. Insistir no padrão da elite, nessa situação, produz desgaste cardiovascular antes do tempo e sensação de esforço desproporcional ao resultado obtido. O ciclista termina o pedal convencido de que precisa treinar mais, quando precisava ajustar o giro.
O oposto também acontece com frequência nos grupos de estrada de fim de semana. Atleta com boa capacidade aeróbica e musculatura menos resistente sofre em giro baixo, principalmente em subidas longas de inclinação constante. Segundo pontua Rolando Bonaccorsi, o teste honesto é comparar o mesmo trecho em cadências diferentes, com potência controlada e registro das sensações.
Como encontrar a faixa própria?
O caminho prático combina medição objetiva e repetição ao longo das semanas. Pedalar um trecho conhecido em três faixas de cadência distintas, mantendo a potência estável, permite comparar frequência cardíaca, percepção de esforço e capacidade de sustentar o ritmo até o fim do bloco programado para aquele treino. Repetir o teste em semanas distintas reduz a influência do cansaço acumulado.
Treinos específicos ampliam a faixa confortável de giro com o tempo. Séries em cadência baixa com carga alta desenvolvem força aplicada, e séries em giro muito alto melhoram a coordenação neuromuscular do gesto. A alternância entre os dois estímulos ao longo da temporada é o que Rolando Bonaccorsi frisa como alternativa mais sensata à busca por um número fixo de referência.
Terreno e prova mudam a escolha
Percurso plano com vento favorável, aceita cadência mais alta sem custo relevante para as pernas. Subida íngreme e longa costuma pedir redução de giro e, quando a relação de marchas disponível permite, mantê-lo próximo da faixa habitual evita acúmulo de fadiga muscular que compromete o restante do pedal. Escolher a coroa e o cassete certos faz mais diferença nesse ponto do que qualquer técnica.
A duração do esforço também pesa na decisão de forma importante. Em provas curtas, o atleta suporta padrões menos econômicos por pouco tempo sem prejuízo, enquanto distâncias longas exigem a faixa mais sustentável possível do início ao fim. Rolando Bonaccorsi ilustra a escolha como ajuste de estratégia para cada percurso, nunca como regra fixa de técnica de pedalada.