A Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 registrou 1.564 denúncias de violência política contra mulheres entre janeiro e agosto de 2026. Os dados foram divulgados em 1º de outubro pela Agência Brasil, com base em informações do Ministério das Mulheres, em um período marcado pelo calendário das eleições gerais no Brasil.
Os registros correspondem a 1.581 violações, porque uma mesma denúncia pode reunir diferentes tipos de agressão. Entre os relatos estão ameaças, difamação, discriminação, ataques racistas e transfóbicos, divulgação de conteúdo inverídico, constrangimento e desqualificação de habilidades. Também aparecem interrupções sistemáticas da fala em ambientes políticos, ameaça de morte, estupro, coação, vandalização de materiais de campanha e tentativas de deslegitimar mulheres em espaços de poder.
Violência ultrapassa o período de campanha
Embora os números tenham sido apresentados durante o ano eleitoral, a violência política contra mulheres não se limita às campanhas ou ao momento de votação. As situações relatadas podem atingir candidatas, mulheres eleitas, servidoras públicas, integrantes de movimentos sociais e outras pessoas que participam da vida política e institucional.
De acordo com o Ministério das Mulheres, a participação política deve ocorrer sem violência ou discriminação. A orientação considera agressões que busquem impedir, restringir ou dificultar o exercício de direitos políticos, além de práticas que tentem afastar mulheres de espaços de decisão por meio de intimidação, humilhação ou ataques direcionados.
Os relatos também evidenciam que a violência pode ocorrer de forma presencial, institucional ou por meio da circulação de conteúdos ofensivos e inverídicos. A combinação de diferentes agressões em um mesmo caso ajuda a explicar por que o número de violações supera o total de denúncias registradas no período.
Como funciona o atendimento do Ligue 180
O Ligue 180 recebe, registra, orienta e encaminha denúncias relacionadas à violência contra as mulheres. Segundo o Ministério das Mulheres, o serviço é gratuito, sigiloso e funciona de forma ininterrupta. O canal pode ser procurado pela própria vítima ou por pessoas que tenham conhecimento de uma situação de violência.
Além do telefone 180, o atendimento está disponível pelo WhatsApp, no número (61) 9610-0180, por e-mail e por videochamada em Libras. A central fornece orientações sobre os serviços públicos disponíveis e pode direcionar o caso aos órgãos responsáveis, conforme a natureza da ocorrência e a necessidade de proteção.
As denúncias também podem ser encaminhadas ao Ministério Público Eleitoral, à Justiça Eleitoral, à autoridade policial, ao Conselho Nacional do Ministério Público, ao Conselho Nacional de Justiça ou à Defensoria Pública da União. A definição do caminho adequado depende das circunstâncias de cada caso e do tipo de violência relatada.
Protocolo nacional reúne órgãos públicos
Em março de 2026, o Ministério das Mulheres lançou o Protocolo Nacional de Enfrentamento à Violência Política contra as Mulheres. A iniciativa contou com a participação do Ministério da Justiça e Segurança Pública, do Conselho Nacional do Ministério Público, da Procuradoria-Geral Eleitoral, do Conselho Nacional de Justiça e da Defensoria Pública da União.
O documento oficial estabelece diretrizes para atendimento, encaminhamento e proteção em situações de violência política. A proposta é organizar a atuação das instituições e ampliar a capacidade de resposta diante de agressões que afetem a participação das mulheres na política e em espaços de representação.
O protocolo também funciona como referência para a articulação entre órgãos públicos. Na prática, a integração busca evitar que a vítima precise enfrentar sozinha diferentes portas de entrada e procedimentos, especialmente em casos que envolvam mais de uma forma de violência ou demandem medidas de proteção.
Participação política e proteção institucional
Os dados do Ligue 180 colocam em evidência um desafio que envolve não apenas as vítimas, mas o funcionamento das instituições democráticas. A presença de mulheres em eleições, cargos públicos, partidos, movimentos sociais e outras instâncias de decisão depende de condições que assegurem liberdade de expressão, segurança e respeito.
Ao registrar a denúncia, a mulher pode obter orientação sobre os serviços disponíveis e sobre os órgãos que podem atuar no caso. A preservação de informações, materiais de campanha, mensagens e outros elementos relacionados à agressão pode ser relevante para o encaminhamento às autoridades competentes, conforme as circunstâncias de cada situação.
O crescimento da visibilidade do tema durante as eleições de 2026 reforça a importância de canais permanentes de atendimento. Para o Ministério das Mulheres, enfrentar a violência política exige acolhimento, registro das ocorrências, responsabilização quando cabível e atuação coordenada da rede pública de proteção.